Para quem é esta página — Para quem precisa transformar uma ideia em regras que outra pessoa ou outro programa consiga implementar, testar e supervisionar sem adivinhar a intenção do autor.
A especificação de uma estratégia sistemática é o documento versionado que descreve a estratégia antes da avaliação: finalidade, hipótese, informações permitidas, transformações, sinais, posições, risco, ordens, custos, benchmark, controles e critérios de revisão. Ela funciona como contrato de pesquisa, interface entre pesquisa e produção e trilha de auditoria.
“Comprar o rompimento com volume” não é uma especificação. Permanecem indefinidos universo, calendário, ajustes, janela, inclusão da barra corrente, horário do cálculo, primeiro preço executável, tamanho, saída, gaps e dados ausentes. Cada ambiguidade permite introduzir retrospectivamente no backtest uma decisão que não existiria em tempo real.
Blocos mínimos
| Bloco | Conteúdo verificável | Pergunta de revisão |
|---|---|---|
| Finalidade e uso previsto | decisão apoiada, usuários, frequência e limites | o que o sistema não deve fazer? |
| Hipótese | mecanismo, previsão falsificável e condições de falha | qual alternativa explica o mesmo resultado? |
| Universo | inclusão, exclusão, composição histórica e data efetiva | aparecem apenas os sobreviventes atuais? |
| Dados | fonte, campo, timestamp, timezone, lag, revisão e versão | o valor era conhecido na decisão? |
| Sinal | fórmula, janela, estado, missing e ordem dos eventos | existem ramos indeterminados? |
| Carteira | mapeamento sinal–posição, restrições, netting e rebalanceamento | qual exposição realmente domina? |
| Risco | limites, cenários, sizing, escalonamento e fail-safe | o que ocorre se um input ou limite falhar? |
| Execução | tipo de ordem, venue, timing, fill, borrow, funding e custos | o preço simulado era alcançável? |
| Avaliação | benchmark, métricas, splits, tentativas e critério decisório | o teste final influencia a escolha? |
| Monitoramento | responsável, limites motivados, alertas, suspensão e rollback | quem decide e com qual evidência? |
Os campos podem estar em texto, configuração e código, desde que sejam reconciliáveis. As unidades precisam ser explícitas: percentual do capital, nocional, volatilidade, delta, moeda e frequência não são intercambiáveis.
O relógio causal
informação disponível → sinal calculado → ordem enviada → fill possível“Preço de fechamento do dia” não basta. O fechamento oficial pode ser conhecido apenas depois do leilão; um fundamento pode se referir a um trimestre e ser publicado semanas depois; uma série macro pode ser revisada. Se o sinal usa o close e o backtest compra no mesmo close, é necessária uma mecânica explícita que permita participar do leilão com a informação exigida. Sem ela, o primeiro preço posterior é mais coerente, mas também precisa modelar gaps e custos.
Para cada input, são úteis a data econômica, a publicação inicial e a versão/vintage usada. Para cada ordem, registram-se estado, timestamp, quantidade solicitada e executada, preço e motivo de rejeição ou cancelamento.
Estados e exceções
Uma estratégia real não vive apenas no ramo “sinal presente → ordem executada”. A especificação determina o que ocorre quando um dado falta ou atrasa; um instrumento é suspenso, delistado ou muda de identificador; um futuro entra na janela de rolagem; o empréstimo de títulos não existe ou custa demais; a ordem é parcial, rejeitada ou permanece aberta; preço, posição, margem ou P&L não reconciliam; ou o controle de risco e a conexão com a corretora falham.
“Não fazer nada” só é uma regra completa quando define o estado resultante: manter, reduzir ou liquidar a posição ou bloquear novas ordens geram riscos diferentes.
Protocolo de pesquisa associado
Antes de observar o resultado usado na decisão, registram-se:
- pergunta e hipótese falsificável;
- versão da especificação e repositório do código;
- dataset, período e universo;
- baseline e benchmark coerentes;
- métricas primárias e secundárias, brutas e líquidas;
- desenho in-sample, validação e teste final;
- conjunto de parâmetros ou modelos candidatos;
- premissas de custo, liquidez e capacidade;
- critério para continuar, alterar ou descartar;
- registro de todos os testes, inclusive os negativos.
O critério não precisa ser um único limiar. Pode exigir coerência econômica, sinal estável em vários segmentos, incerteza aceitável, materialidade líquida e ausência de dependência de um único ponto. O rigor acompanha o uso: uma ferramenta exploratória interna e uma estratégia que move capital têm consequências diferentes.
Versões, reprodutibilidade e replicação
Cada resultado deve identificar commit ou release, configuração, ambiente, dependências, seeds, versão do dataset e saída. Snapshot ou hash ajuda a provar que o input não mudou. Reexecutar o mesmo código nos mesmos dados trata de reprodutibilidade; encontrar evidência coerente em realização independente trata de replicação. São propriedades próximas, não equivalentes.
Quando um teste out-of-sample provoca uma mudança, nasce nova versão. O segmento consultado não volta a ser intacto: deve ser registrado como informação de desenvolvimento. Essa genealogia impede que iterações acumulem data snooping invisível.
Separar funções pode fortalecer a revisão, mas “independente” não significa necessariamente externo. Significa que quem questiona premissas, implementação e uso tem competência, autoridade e incentivos para contestar o resultado.
Exemplo: sinal no fim do dia
Uma especificação hipotética usa apenas dados consolidados até o fechamento de
t, calcula o sinal após receber os arquivos finais e permite enviar
ordens somente a partir da abertura de t+1. O universo preserva a
composição histórica; instrumentos não negociáveis geram exceção; a quantidade
respeita participação e concentração; e o custo depende de spread e volume.
O exemplo não diz que a abertura seguinte é sempre correta. Ele mostra como tornar a causalidade auditável. Participar do leilão de fechamento exigiria sinais calculáveis antes do cutoff e execução coerente com aquele leilão.
Critérios de qualidade
- Um implementador independente não precisa inventar regra ausente.
- Cada variável possui definição, unidade, timestamp e comportamento em missing.
- Os resultados remetem a uma versão imutável.
- Premissas de backtest e produção podem ser comparadas linha a linha.
- Exceções conduzem a estados seguros e observáveis.
- Limites se ligam a risco, capacidade ou uso previsto, não a números decorativos.
- Toda mudança material reabre as verificações afetadas.
A especificação não elimina o risco de modelo. Ela torna as escolhas visíveis e permite separar erro de pesquisa, implementação e uso.
Fontes
- Joseph Simonian, CFA Institute Research Foundation, Investment Model Validation: A Guide for Practitioners — finalidade, técnicas de validação, benchmarking, stress e documentação.
- Federal Reserve, SR 26-2 — Revised Guidance on Model Risk Management — princípios atuais de desenvolvimento, uso, validação, governança e monitoramento no âmbito bancário supervisionado.
- U.S. Securities and Exchange Commission, Staff Report on Algorithmic Trading in U.S. Capital Markets — contexto institucional sobre algoritmos decisórios e de execução e seus riscos.
- National Futures Association, Interpretive Notice 9025 — Hypothetical Results — limites dos resultados hipotéticos e importância das premissas, liquidez, slippage e comportamento em seu próprio âmbito.